sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Betty, a inadequada!


Betty, a feia. Telenovela colombiana apresentada na emissora RCN.

Já faz algum tempo, minhas amigas estranham o meu hábito de não ver mais novela brasileira, mas sim, as colombianas. E tudo começou com Betty.

A novela “Yo soy Betty, la fea” foi ao ar no Brasil pela RedeTV há uns oito anos atrás simplesmente como “Betty, a feia”. Naquela ocasião, não lhe “pare bolas” como dizem nossos hermanos mas ajá, ou seja, não dei muita atenção. Recentemente a internet e a boa vontade daqueles que postam capítulo por capítulo uma novela inteira num canal do youtube, me possibilitaram apreciar sem dublagem a história de Betty.

A produção original colombiana foi ao ar naquele país entre 1999 e 2001 pelo canal RCN (Radio Cadena Nacional), e, para além dos países que exibiram sua versão original, contei mais de 18 que fizeram um remake próprio. Entre eles, nós mesmos, brasileiros, com “Bella, a feia”, recente produção da Rede Record. Com esta, já é a quarta versão apresentada por aqui. Além da colombiana, o SBT apresentou a mexicana “La fea mas bela” e a série americana “Ugly Betty”. Mas o que teria Betty de tão especial para ter entrado, inclusive, no Guiness Book 2010 como a telenovela de maior sucesso?

Escrita por Fernando Gaitán, a história de Betty pode ser analisada sob vários aspectos, mas o mais interessante, certamente, é acompanhar o sucesso pessoal e profissional de uma mulher considerada feia. Um conto de fadas romantico e moderno? Hum... pode ser. Mas, que conste: antes de qualquer análise, a classificação de “feia” é para ser pensada.

A história é a seguinte. De um lado, Beatriz Pinzón Solano, a nossa Betty. Uma economista brilhante com um curriculum invejável, mas com dificuldades para encontrar um trabalho na sua área. O motivo? Quando os analistas de Recursos Humanos olham a sua foto, preferem não chamá-la para uma entrevista. Quando Betty decide enviar seu curriculum sem a foto, é finalmente, chamada, só que, para o cargo de secretária da presidência de uma das maiores empresas de moda da Colômbia, a Ecomoda. Logo de moda!

De outro lado, uma empresa familiar de onde seu fundador, Roberto Mendoza, se retira para gozar sua aposentadoria, deixando em seu lugar, seu egocêntrico filho, Armando Mendoza. A família Mendoza fundou a Ecomoda junto com a família Valencia. O casal Valencia, tendo se acidentado fatalmente, passa a ser representado por seus filhos, o arrogante Daniel, que disputa a sucessão da empresa com Armando, Marcela, a noiva de Armando e a desligada Maria Beatriz, que apenas goza dos polpudos cheques mensais que recebe por sua participação. Na disputa pelo comando da empresa, Armando levou a melhor sobre Daniel, e agora precisa levar a cabo um plano cujas metas são bastante ambiciosas. Ele conta com seu amigo e aliado Mario Calderón.

Neste momento, iniciam a seleção da nova secretária de Armando Mendoza. Marcela, sabendo da fama de conquistador de seu futuro marido, indica sua belíssima amiga Patricia Fernandez para o posto de secretária, principalmente para que “vigie” Armando em suas escapadas. Certo disso, Armando incentiva a contratação de Betty, que, afinal de contas, tem muito melhor curriculum do que Patrícia, e, diga-se de passagem, do que de quase todos na empresa. Ao fim, para não se indispor com a noiva, Armando contrata Patrícia, mas Betty é quem, entre outras atividades, cuidará de sua agenda pessoal, e o auxiliará com os balanços da empresa. Patricia é bonita, mas não muito inteligente, e faz uma boa antagonista para Betty.

Beatriz Pinzón Solano, aos poucos se revela excelente profissional, além de fiel escudeira de Armando, sempre salvando sua pele, seja de Marcela, a noiva ciumenta, seja de Daniel, quando encobre os erros sucessivos que seu chefe comete em sua administração para permanecer na presidência. Betty então conquista plenamente a confiança de Armando. Tanto que, num momento em que a empresa está a ponto de ser embargada por conta da desastrosa gestão do seu presidente, este faz uma jogada legal, porém nada ética, passando a empresa para o nome de Betty. Totalmente, nas mãos de sua agora assistente, Armando teme pelo que possa ocorrer, e incentivado por seu amigo Calderón, inicia um jogo de sedução com Betty.

Percebi que muitas pessoas assistem à novela muito mais do que uma vez só. E um dos motivos, creio, é tentar observar em que momento exatamente Armando se apaixona de verdade por Betty. Sim, porque isso ocorre, e antes da transformação da “feia” em “cisne”. Só que Armando demora a se dar conta disso, e este, digamos, “bloqueio” do executivo se dá, exatamente, por conta da aparência de Betty. E é aqui que iniciam as minhas questões.

O ponto de partida é o fato de que o mundo, sim, fecha as portas àqueles considerados “feios”. Ainda que sua capacidade esteja acima da média, é preciso cavar duramente uma chance para poder se provar. Segundo o historiador Arthur Marwick, aos considerados “belos”, o mundo oferece mais oportunidades. Isso já foi comentado em outro post. O amor de Armando esbarra numa aparência que ele mesmo rechaça, fechado em seu mundo de supermodelos. Mas o que faz de Betty uma mulher “feia”? Em uma passagem da novela Betty diz: "Da proxima vez que quiser conhecer uma mulher realmente interessante, faça-o com os olhos fechados". Com este comentário Betty quer dizer que os olhos julgam muito antes dos ouvidos.

Autores que se dedicam a pensar sobre a moda e a beleza, como Marwick, Etcoff e Calanca concordam num ponto. Moda e beleza muitas vezes geram confusão. E Betty é um exemplo disso. Ela tem um cabelo diferente, com uma franja armada, usa um modelo de óculos que esconde seus olhos, possui pêlos no rosto, com sobrancelhas que se emendam por sobre o nariz e um buço que nunca viu uma cera de depilação ou mesmo uma pinça em toda a sua vida. Para completar, usa incômodos aparelhos dentários e roupas nada adequadas ao ambiente de trabalho, especialmente numa empresa de moda. Sua aparência esta fora dos padroes considerados de beleza na sua cultura. O figurino da novela deixa duvidas. Mas me interesso mais especificamente pelo figurino de Betty. As ombreiras grandes, típicas dos modelitos executivos das décadas de 1980 e 1990 estão lá, e se fazem fortemente presentes na imagem de Betty porque são exageradas. Roupas largas, compridas, com estampas que pouco lhe favorecem são acompanhadas de meias brancas ou escuras e sapatilhas. Betty, ao fim, não é feia, é inadequada.

Etcoff sinaliza para traços no rosto que são universais para evidenciar o que percebemos como beleza – o rosto redondo, o nariz pequeno, olhos grandes, simetria e proporção. Betty tem tudo isso. Suas amigas do chamado “quartel das feias” sofrem do mesmo mal. Cada uma delas possui um tipo físico marcante. Uma é muito alta, outra, muito baixa, uma terceira é negra, há uma gordinha, uma idosa e uma última, belíssima, que apenas peca pelo excesso de sensualidade ao escolher suas roupas gerando a percepção de vulgaridade.

Num dado momento, durante o seu jogo de sedução, Armando se irrita com os vizinhos de Betty que a provocam chamando-a de feia, e parte para briga. Betty então percebe que seu chefe, um amor antes platônico, de fato se interessa por ela. E por isso, decide sozinha “cambiar el look”. Foi um desastre total. Sem querer amargar-lhe a vida, suas amigas do “quartel” não comentam nada sobre a sua mudança, mas perguntam como ela escolheu o tal novo “look”. Suas explicações mostram a insegurança de uma mulher, que, encerrada em um lar conservador e mergulhada nos estudos, não teve acesso à pedagogia da moda. O que estava na moda, para ela, não lhe assentava. Por isso, pouco mudou o cabelo, mantendo a franja e criando cachos ao redor do rosto. Visitou uma loja considerada moderna pelas amigas, mas ao fim, optou por comprar roupas na loja em que sua mãe comprava. Ali ela estava em sua zona de segurança. Mudar e ousar poderia ser perigoso. Finalmente, seu desafeto Daniel Valencia não teve dúvidas ao humilhá-la discorrendo sobre sua aparência e frisando a importância de uma boa apresentação numa empresa que vende moda. Betty se dá conta do equívoco e Dom Daniel, sim, tinha lá suas razões. Betty não era mais secretaria (e mesmo que ainda fosse), era uma executiva de uma empresa que vende moda. E a moda é um elemento chave para transformar as aparências, para contribuir para uma imagem que desperte a boa impressão dos outros. Betty entendeu o recado.

Com a ajuda de uma amiga com alguma expertise sobre as aparências, e, justamente durante um concurso de Miss Colômbia na cidade de Cartagena, Betty se transforma. Ela havia saído da Ecomoda e agora trabalhava com alguém que a respeitava e admirava por sua inteligência e integridade. Mas o mais inteligente da novela é que sua transformação não precisou de muitos recursos. Renunciou à sua franja, tirou os pelos do rosto e, principalmente, mudou o figurino, para algo mais leve, cores em tom pastel, modelos mais bem talhados para o seu corpo. Agora sim, Betty estava “adequada”. Embora ainda conservasse a pesada armação dos óculos e o aparelho dentário, já despertava emoção pelas ruas. Foi “coqueteada” por desconhecidos pela primeira vez em sua vida.


À direita a atriz Ana Maria Orozco, e à esquerda sua caracterizaçao como Betty.

Seu retorno à Ecomoda foi triunfal. Por percursos que só os bons autores de novela fazem e nos convencem, Betty tornou-se presidente da Ecomoda e tinha pela frente a árdua missão de recuperar o ponto de equilíbrio da empresa. Sua estratégia de vendas fora elaborada com base na sua própria experiência de vida. Agora, considerada uma mulher atraente, bonita, e até sexy, Betty decidiu mudar a imagem das amigas do “quartel das feias”, criando modelos mais adequados, escolhendo cores que favorecessem a percepção de uma boa imagem para as moças. Por fim, decidiu colocar em suas lojas vendedores especialmente treinados para oferecer às suas clientes “feias” aquilo que lhes caisse melhor no corpo, criando uma imagem harmoniosa. Este tipo de profissional lhe fizera falta quando decidira “cambiar el look” solita.

Seus argumentos com o vaidoso estilista da Ecomoda foram contundentes. É muito fácil vestir uma mulher que já é considerada linda. Ou seja, em mulheres como Gisele Bünchen, por exemplo, qualquer trapo cai bem. Ela não precisa da roupa adequada e da moda como aliados. O maior desafio de um estilista é criar modelos que favoreçam as não “Giseles”, ou seja, desafortunadamente, a maioria da população. Para uma empresa que precisava gerar volume de vendas, não poderia haver melhor estratégia. Saludos a todos!

6 comentários:

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  2. A despeito das velhas artimanhas dos efeitos de maquiagem para "alterar" traços fisionômicos - e não esquecendo o caduquíssimo truque de aplicar enorme óculos como estereótipo de feiúra (mas que desaparecem, um dia, do nada, juntamente com o problema de visão)-, o fato é que este texto está delicioso e parabenizo a amiga pela ótima construção do tema. Com o qual, aliás, dentro de meus modestíssimos conhecimentos do assunto "moda", mas como apreciador da beleza feminina, concordo plenamente!

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  3. George, querido, vc eh um fofo. Obrigada pelo comment. De fato, o que ocorre eh isso. A moda funciona como um suporte bastante interessante para as nao Giseles. Vou para SP no final do mes. Vamos ver se conseguimos nos ver.

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  4. Solange, você via a novela? Finalmente alguém que confessa assim, em público! Eu via a primeira versão, graças a Luisa. E rolava de rir com as amigas horrorosas. E você foi boazinha ao dizer que a tal Patricia não era muito inteligente. Ela era a própria 'loura burra', ou melhor, era chamada de 'oxigenada'. O galã era esquisitinho.

    Eu me divertia muito. Tempos depois o SBT colocou outra versão, que era Lety, se não me engano.

    Faz sucesso porque a maioria das pessoas é 'normal' ou feia (de acordo com os padrões da moda) e as pessoas se identificavam e sonhavam com a possibilidade de um dia encontrar uma fada madrinha que as transforme. A gente já ouve isto desde pequena, nos contos de fada. :-)

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  5. Pois eh Thays. Na verdade, soh vi a novela agora pela internet. Algumas pessoas postaram a novela inteira no youtube, e ateh com boa qualidade. Os comentarios no forum sao otimos. Achei os dialogos da novela bem inteligentes. E haveria ateh outras coisas para comentar. Como o fato de Betty e seu amigo "feio" andarem numa Mercedes provocar algumas reaçoes - principalmente em relaçao aa aparencia deles. Ou ateh mesmo como o amigo feio lida com a aparencia, ou ao contrario, como no homem a aparencia gera menos problemas. Na verdade, me encantei com a novela, e adorei o gala neurotico. E concorco com vc. O sucesso se deve mesmo ao toque de conto de fadas com o qual a marioria das mortais se identifica. Mas essa eh mais a sua praia. Minha analise fica no campo do social e de como lidamos com moda e beleza. Bjus.

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  6. Olá Solange que bela narativa, você fez uma análise bem acurada da novela principalmente focando a questão beleza, gostei muito.
    Queria seber se posso postar sua matéria no meu blog (recém construído) Betty la Fea _ Fãns Brasil, claro com todos os créditos de sua autoria! beijos e obrigado pelo maravilhoso texto.

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